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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A propósito da técnica lexicográfica e da "invenção semibilíngue"...

É claro (?) q a "invenção" do conceito de dicionário "semibilíngue" surgiu através do editor israelense Lionel Kernerman e, logo a partir de seu aparecimento, passou a ser utilizado indistintamente por lexicógrafos no mundo todo, com os créditos sempre consignados ao seu "inventor" de direito.

Acontece q, pelo menos em termos de Brasil, a utilização da mesma "técnica" lexicográfica (com a acepção q Kernerman lhe conferiu) precede a "invenção" do termo "semibilíngue", este q surgiu com o dicionário do editor israelense -- em termos idênticos aos q foram utilizados nessa "técnica" lexicográfica e na "invenção" do termo "semibilíngue", q são "animais" totalmente diferentes. No início dos anos 1980, em 1982 para ser mais preciso, poucos anos antes da "invenção" do conceito por parte de Kernerman, a Profa. Rosa W. Konder (UFSC) fez publicar, no Brasil, através da editora Ao Livro Técnico (em co-edição com a Longman), um dicionário bilíngue de bolso com características em tudo semelhantes àquelas do Password, o tal dicionário de L. Kernerman.

A seguinte declaração do editor israelense (cito, em http://kdictionaries.com/newsletter/kdn11-10.html), a meu ver, não o livra da pecha de plagiador de ideias alheias -- haja vista sua capacidade de distorcer os fatos, descontruindo-os todos a seu favor. Vejamos, portanto, o q o editor israelense tem a dizer, puxando a brasa sempre pra sua própria sardinha:

"Published on January 1, 1986, Oxford Student’s Dictionary for Hebrew Speakers (OSDHS) was not the first dictionary of its kind. As noted in my Publisher’s Preface at the time, 'This is not the first attempt to publish a semi-bilingual dictionary (SBD). However, this is the first such dictionary ever published in any language for the intermediate-to-advanced level and the only one based on a learner’s dictionary with an established world-wide reputation' [my italics]. Previous SBDs for learners of English at the elementary-to-lower-intermediate level, include:


- In 1982, Longman co-published with AO Livro Technico [sic], in Brasil, a 10,000-word SBD, entitled Longman English Dictionary for Portuguese Speakers, by Rosa W. Konder [my italics].
- In the same year, Harrap published an SBD written by P.H. Collin, called Harrap’s Dictionaire de 2000 Mots, Anglais-Francais.
In Beirut, Librairie du Liban published a 20,000-word SBD in 1985: Al-Mufid, A Learner’s English-Arabic Dictionary, by Nasr and Al-Khatib.
- OUP published that year a 2500-word SBD called First Dictionary for French-Speaking Africa.


It is possible that other SBDs appeared before, that have not come to my attention. Other dictionaries I have occasionally heard about turned out to be not semi-bilingual but rather, to use R.R.K. Hartmann’s term, “bilingualized”, in which not only the headword is translated, but the definitions and/or examples are translated as well.


In Israel, the appearance of OSDHS and, in 1987, Harrap’s English Dictionary for Speakers of Arabic, marked the first official recognition of the use of the mother tongue in the foreign language classroom. The acceptance was so complete, that it has eventually become the only type of dictionary permitted in the English matriculation examinations, which are themselves geared to this dictionary. Monolingual dictionaries are not permitted in the school sytem at all, and bilingual dictionaries may be used by students at the lower level of matriculation.


OSDHS had over 50 reprintings of the first two editions (2nd ed. published in 1993). Its impact on pedagogical lexicography and English learners’ dictionaries goes well beyond Israel, in many countries and languages worldwide".

Insisto q, no comunicado acima, o editor israelense pode até "informar" q "sua" ideia não é original, mas, ainda assim, ele insiste em dizer q é, (talvez) de direito (mas não de facto), o "criador original" da técnica denominada "semibilíngue" pq o seu dicionário "é o único baseado num dicionário para aprendizes com uma reputação sólida em todo o mundo", como se os outros tb não o fossem. Por q então vc não manteve essa declaração na 2. ed. de seu dicionário? Outra pergunta pertinente: vc por acaso conhece as fontes de todos esses dicionários com características idênticas publicados antes do seu? Sim, pq pelo menos as fontes do dicionário da Profa. Rosa W. Konder jamais seriam melhores nem tampouco piores do q as do seu dicionário. Qdo vc falar do dicionário da Profa. Rosa W. Konder, lembre-se de q vc está falando com alguém q é qualificadíssima em termos de lexicografia, ou seja, vc não está falando com uma qualquer! O seu dicionário, Sr. Kernerman, foi "original e simplesmente" traduzido; o dela, ao q tudo indica e a julgar pelo nível de seu conhecimento lexicográfico de português e de inglês, não o foi. Portanto, fique o Sr. sabendo q o dicionário da Profa. Konder É muito mais original q o seu, de facto e de direito!

Acontece tb q, apesar da apenas aparente felicidade da "invenção" da palavra "semibilíngue", a própria formação morfossemântica do termo é, no meu entendimento, antitética por natureza e, mesmo, um tanto qto absurda. Observem q o prefixo "semi-" significa "metade, meio" (tanto em inglês como em português), e o substantivo "bilíngue" quer dizer, entre outras definições, q um indivíduo "fala, ou seja, é fluente em dois idiomas". São, portanto, termos contraditórios, antitéticos, qual seja, um praticamente anula a acepção do outro. O neologismo "semibilíngue" quereria dizer, por acaso, q um indivíduo fala ou é fluente em duas línguas "pela metade"? Em quais circunstâncias isso pode ocorrer?

Bom, talvez o termo "semibilíngue", utilizado num contexto específico, refira-se ao conhecimento dum estudante de LE em contraste com (ou em relação a)o conhecimento q esse mesmo estudante tem (apenas por ser falante nativo alfabetizado?) de seu próprio idioma, e vice-versa. Mas aí teríamos, a meu ver, q redefinir parte da ciência linguística como um todo para q os componentes morfossemânticos da palavra "semibilíngue" não se mostrassem tão contrários um ao outro como o são na realidade.

Oportunamente, ainda voltarei ao presente tema.

Bom Ano Novo a todos!

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Quem sou eu

Teresina, Piauí, Brazil
Professor de língua inglesa no Depto. de Letras da Universidade Federal do Piauí - UFPI desde 2002. Doutor em Letras pela Universidade de Minnesota - Twin Cities, título obtido em 2000.