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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

1. Caracterização do Problema:

No contexto das línguas neolatinas, Raphael Bluteau (1638-1734), o grande dicionarista (britânico de nascimento e português por adoção), é tido como um dos principais consolidadores de certo sistema lexicológico e lexicográfico de caráter bilíngue (Latim e Português) e trilíngue (incluindo o Espanhol), que, em contextos linguísticos extra-neolatinos de sua época, era, pelo que se conhece, uma opção mais ou menos indisponível. Com várias modificações de praxe conhecidas ao longo do tempo, ainda hoje tal sistema opera no mundo lusófono (ver: PONCE DE LEON; DUARTE, 2005) – basta perceber as justas homenagens que, nos dois lados do Atlântico, Caldas Aulete, Aurélio e Houaiss já prestaram a Bluteau em diferentes épocas e contextos (ver: GONÇALVES, 2006).
Na história da língua inglesa, o mais importante pioneirismo lexicográfico monolíngue coube, desde sempre, ao Dr. Samuel Johnson (1709-1784) com a publicação, em 1755, do seu A Dictionary of the English Language (ver: CRYSTAL, 2001, p. 74-75). As definições de Johnson para o vocábulo “lexicographer” (lexicógrafo) incluíam: “a writer of dictionaries” e “a harmless drudge, that busies himself in tracing the original, and detailing the signification of words” (JOHNSON apud CRYSTAL, 2001, p 74). Esse “‘burro de carga’ inofensivo” (“harmless drudge”), “que se ocupa em traçar as origens e detalhar a significação das palavras”, continua, ao que tudo indica, sofrendo horrores, ainda hoje, para detalhar o significado do que hoje são tratadas como “unidades lexicais”. Como era de se esperar, com o tempo foram surgindo mais e maiores interrogações quanto ao exaustivo trabalho dos lexicógrafos e, mais ainda, quanto à metodologia geral empregada na confecção dos dicionários.
Os usos (e abusos) do processo de leitura em língua estrangeira (LE) por parte de aprendizes fizeram com que, nesse processo, se tornasse mais e mais dispensável a utilização de dicionários bilíngües de bolso (LE-Português/Português-LE). Estes, por sua vez, nem sempre trazem respostas prêt-à-porter, ou, pior ainda, uma resposta cuja chance de ver suprido, em primeira mão e de forma exata, o significado contextualizado mais próximo de qualquer unidade lexical, polissêmica e desconhecida pelo usuário em suas várias acepções – o que ao usuário não deixou de ser desalentador. Sem embargo, dicionários desse tipo sempre estiveram tradicionalmente distantes de suprir todas as necessidades mais imediatas de leitores e usuários em geral. Até porque esses dicionários podem e devem ser utilizados apenas como “ferramentas de auxílio à leitura”, há ainda muitos outros reflexos, positivos e negativos, quanto ao modo mais apropriado de sua utilização. Começa porque os dicionários bilíngues de bolso atualmente disponíveis no mercado são limitados por vários aspectos, ora meramente descritivos (como na apresentação geral dos verbetes), ora onde quer que existam escolhas cada vez mais sensíveis para facilitar a consulta aos usuários, como comentam DURAN; XATARA (2006) e HUMBLÉ (2006).
Aliás, é nesses pesquisadores de “metalexicografia pedagógica” que se nota como é complicado lidar com lexicografia a partir dos corpora dos dicionários bilíngues de bolso, muitos deles coligidos às pressas e/ou com poucos critérios de escolha lexical. Tais dicionários variam na apresentação geral das unidades lexicais e na presença (ou ausência) de “instruções de uso”; isso sem falar na nomenclatura utilizada nos verbetes e na utilização de abreviaturas e símbolos. As dúvidas se acumulam. Afinal, usa-se uma transliteração para o português ou o International Phonetic Alphabet para a transcrição da pronúncia? As definições e abonações na língua de partida (ao invés de apenas defini-las secamente na língua de chegada, como é mais comum) foram o principal sintoma da inovação proposta no Password, cuja 1. ed. brasileira data de 1991. Ao lado de outros dois ou três dicionários bilíngues de bolso (porventura menos qualificados, mas também de grande circulação no mercado), o Password servirá como um dos guias para a pesquisa aqui proposta.
Este Projeto de pesquisa propõe um upgrade, a partir da inovação do Password, em cima da sua proposição “semibilíngue”, sobretudo levando em conta que quase sempre existem aspectos decorrentes das preocupações mencionadas que podem ser aperfeiçoados caso sejam adotadas medidas para tornar a consulta ainda mais atrativa aos usuários. Tal renovação terá como principal objetivo a extração (total ou, no mais das vezes, apenas parcial) de unidades lexicais cognatas extremamente óbvias que ainda tomam muito espaço nos corpora desses dicionários. Em meio à globalização atual, a definição e a tradução de um adjetivo como “automatic”, por exemplo, não têm lá mais tanto “appeal”. Isto porque, hoje, o nível de background knowledge dos consulentes é muito mais alto do que há trinta, quarenta anos, o que torna desnecessárias a definição, a abonação e a tradução interlingual de muitos verbetes, e abre um espaço considerável para “enxugar” o produto final, limar suas arestas. E aqui entra em cena outro norte da pesquisa: as obras mais atuais de Agenor Soares dos Santos (2006; 2007). A primeira, sobre a elevada presença de anglicismos no léxico do português do Brasil (SANTOS, 2006), sobretudo após o advento da internet; a segunda, com informações recentes sobre unidades lexicais cognatas, os “faux amis”, expressão francesa para “falsos cognatos”, ou melhor, “cognatos enganosos” ou “enganadores”, como preferem o próprio Santos (2007), e Sabino (2004), entre outros. Percebe-se assim que uma varredura de tal monta aliada a uma consequente recopilação dos dados implicarão, possivelmente, em uma renovação do conceito lexicográfico de “dicionário semibilíngue” proposto ainda em meados dos anos 1980 pelo editor mundial do Password, o israelense Lionel Kernerman.

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Quem sou eu

Teresina, Piauí, Brazil
Professor de língua inglesa no Depto. de Letras da Universidade Federal do Piauí - UFPI desde 2002. Doutor em Letras pela Universidade de Minnesota - Twin Cities, título obtido em 2000.